Primeiro turno provoca forte reação nos mercados, mas cenário econômico ainda exige cautela
A Bolsa brasileira teve um dos pregões mais fortes de sua história na segunda-feira após o primeiro turno das eleições. O Ibovespa subiu 7,70%, aos 206.911 pontos, superou pela primeira vez a marca de 200 mil pontos e chegou a 209.605 pontos durante o dia. O dólar caiu 4,12%, para R$ 5,00, enquanto os juros futuros recuaram em toda a curva. O volume negociado na B3 ultrapassou R$ 100 bilhões.
A reação ocorreu depois de um resultado eleitoral diferente do que boa parte das pesquisas indicava na reta final da campanha. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, levando o mercado a trabalhar com um cenário diferente daquele que estava embutido nos preços antes da votação.
Mas o movimento não foi uniforme. E essa diferença entre os setores ajuda a entender o que o mercado efetivamente precificou após o primeiro turno.
A Bolsa não subiu por inteiro: ações domésticas lideraram
As ações mais ligadas à economia doméstica foram as principais beneficiadas pelo movimento. B3, BTG Pactual e Magazine Luiza subiram mais de 20% no pregão, enquanto empresas exportadoras ficaram na outra ponta. Suzano e Embraer recuaram.
A explicação passa também pelo comportamento dos juros e do câmbio.
A queda dos juros futuros melhora as condições para empresas mais dependentes de crédito e aumenta o valor presente dos fluxos de caixa das companhias domésticas. Ao mesmo tempo, um dólar mais baixo reduz, quando convertido para reais, o valor das receitas obtidas no exterior por empresas exportadoras.
Por isso, mais do que uma alta generalizada da Bolsa, o pregão mostrou uma mudança de preferência dentro do mercado acionário.
O investidor passou a comprar principalmente empresas que podem se beneficiar de uma eventual melhora das condições financeiras domésticas.
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O Congresso também entrou na conta
O resultado para o Congresso ajuda a explicar parte dessa mudança de percepção.
O PL elegeu 121 deputados e terá a maior bancada da Câmara. No Senado, foram 19 dos 54 senadores em disputa, e o partido deverá chegar a 28 integrantes em 2027, também como a maior bancada da Casa. A renovação do Senado chegou a 74%, com 40 das 54 cadeiras em disputa passando para novos ocupantes.
Para o mercado financeiro, a composição do Congresso importa porque influencia diretamente a capacidade de aprovação de medidas econômicas. A nova configuração do Legislativo, portanto, passou a fazer parte da leitura dos investidores sobre o que pode acontecer depois da eleição presidencial.
É uma das razões pelas quais a reação dos ativos foi tão intensa em apenas um pregão.
O mercado mudou de percepção, mas os fundamentos ainda não mudaram
Aqui está o principal ponto de atenção.
Enquanto os preços dos ativos reagiram rapidamente ao resultado eleitoral, os indicadores econômicos divulgados na mesma segunda-feira não apresentaram uma mudança equivalente.
O Boletim Focus elevou pela terceira semana consecutiva a projeção de inflação para 2026, de 4,99% para 5,01%. A expectativa para o crescimento do PIB caiu de 1,86% para 1,85%. Para 2027, o mercado passou a projetar crescimento de 1,40%.
A projeção para a Selic permaneceu em 13,50% ao final de 2026 e 12% em 2027.
Ou seja: os ativos passaram a refletir uma percepção política diferente, enquanto as projeções para inflação, crescimento e juros continuam apontando para um ambiente que exige cautela.
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Então, a Bolsa já precificou o segundo turno?
Ainda é cedo para afirmar.
A forte alta do primeiro pregão já incorporou uma parcela importante da nova percepção dos investidores. Mas o resultado da eleição presidencial será apenas uma parte da equação.
Para os mercados, também será necessário acompanhar a formação do próximo governo, a relação com o Congresso e, principalmente, a condução das contas públicas. Esses fatores terão influência direta sobre a trajetória dos juros e do câmbio.
A questão, portanto, é quanto das expectativas favoráveis já está refletido nos preços e quanto ainda dependerá das decisões econômicas que vierem depois da eleição.
O movimento de segunda-feira, 05 de outubro, mudou o nível de preços. Para que a Bolsa sustente essa valorização, será necessário que as expectativas que levaram os investidores a comprar ações domésticas encontrem respaldo nas decisões econômicas dos próximos meses.


